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O Sobreiro e o Montado

  • Foto do escritor: Carla Vieira
    Carla Vieira
  • 17 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura

"No silêncio do montado, o sobreiro ensina que a verdadeira força é crescer devagar, criar raízes profundas e oferecer ao mundo mais do que toma da terra.”


Pilar da sustentabilidade em Portugal


O montado constitui um dos sistemas agroflorestais mais emblemáticos do território português, particularmente expressivo no Alentejo. Organizado em torno do sobreiro (Quercus suber) e da azinheira, o montado configura um sistema agroflorestal mediterrânico onde se combinam, de forma integrada, a produção florestal, a conservação da biodiversidade, as atividades económicas de base tradicional e a provisão de serviços de ecossistema essenciais ao equilíbrio ambiental.


No centro deste sistema encontra-se o sobreiro, espécie protegida por legislação nacional, que sustenta a fileira estratégica da cortiça e desempenha funções ecológicas determinantes para a estabilidade e resiliência ambiental.

 

O Montado: Um ecossistema multifuncional


O montado caracteriza-se por:


• Baixa densidade arbórea


No montado, as árvores distribuem-se de forma espaçada, com copas amplas e sem formação de dossel contínuo. Esta configuração permite maior entrada de luz no subcoberto, favorecendo o desenvolvimento de pastagens naturais e culturas agrícolas. Do ponto de vista ecológico, reduz a competição por água, recurso crítico em clima mediterrânico e contribui para maior resiliência em períodos de seca.


• Mosaico paisagístico diversificado


O montado apresenta uma estrutura em mosaico composta por diferentes estratos e usos do solo: árvores dispersas, matos, pastagens e, por vezes, culturas agrícolas. Esta heterogeneidade estrutural cria múltiplos nichos ecológicos, promovendo elevada diversidade de espécies e estabilidade ecológica. Sistemas em mosaico tendem a ser mais resilientes a perturbações como incêndios e pragas.


• Integração com agricultura e pastorícia extensiva


Trata-se de um sistema agro-silvo-pastoril, onde a produção florestal (cortiça), agrícola e pecuária coexistem de forma complementar. A pastorícia extensiva, como a criação de porco Alentejano alimentado a bolota, contribui para o controlo da vegetação espontânea, reduzindo carga combustível e risco de incêndio. Este modelo baseia-se em práticas de baixa intensidade, com menor pressão sobre o solo e os recursos hídricos.


• Elevada biodiversidade


O montado é considerado um dos ecossistemas agroflorestais mais biodiversos da Europa. A diversidade de habitats sustenta uma ampla variedade de flora, aves, mamíferos, insetos e microrganismos do solo. A presença de espécies emblemáticas e a complexidade ecológica reforçam o seu valor para conservação, funcionando como corredor ecológico e reservatório genético em paisagens mediterrânicas.


Serviços de ecossistema: Sustentabilidade na prática


Trata-se de um sistema de equilíbrio delicado, exclusivo do Mediterrâneo, com especial incidência no sul da Península Ibérica. As árvores assumem a componente estrutural do ecossistema, sendo o sobreiro e a azinheira as espécies dominantes. Os seus frutos,  bolota (azinheira) e lande (sobreiro), são fundamentais na alimentação do porco Alentejano em regime extensivo, sustentando produtos tradicionais de elevado valor económico e cultural.


O montado desempenha um papel determinante na prestação de serviços ambientais essenciais. Ao nível da regulação hidrológica e da proteção do solo, o sistema radicular profundo do sobreiro permite estabilizar o terreno, reduzir processos erosivos e favorecer a infiltração da água, contribuindo para a manutenção da fertilidade e para o equilíbrio do ciclo hidrológico.


Paralelamente, destaca-se pela elevada biodiversidade, sendo reconhecido como um dos ecossistemas agroflorestais mais ricos da Europa em diversidade de espécies, ao oferecer múltiplos habitats que sustentam comunidades faunísticas e florísticas variadas. Acresce ainda a sua relevante função no sequestro de carbono, desempenhando um contributo significativo para a mitigação das alterações climáticas, uma vez que o sobreiro é responsável por uma fração expressiva do carbono armazenado nas florestas portuguesas.

 

Ameaças e declínio do Montado


Apesar da sua importância estratégica, o montado enfrenta um cenário preocupante:


  • Cerca de 60% apresenta sinais de degradação.


  • Mais de 8% das árvores encontram-se mortas.


  • Maior incidência nas regiões do Algarve e Beira Interior Sul.



Principais causas do declínio do Montado 

Fator de Pressão

Impacto no Ecossistema

Mobilizações profundas do solo

Danificam o sistema radicular do sobreiro, comprometendo a absorção de água e nutrientes e aumentando a vulnerabilidade a stress hídrico.

Secas prolongadas e ondas de calor

Intensificam o défice hídrico, reduzem a vitalidade das árvores e aumentam a mortalidade, ocorre especialmente em povoamentos envelhecidos.

Aumento do risco de incêndios

Incêndios mais frequentes e severos provocam perda de coberto arbóreo, degradação do solo e quebra da regeneração natural.

Doenças (ex.: Phytophthora)

Patógenos do solo afetam as raízes, causando declínio progressivo e morte das árvores.

Envelhecimento dos povoamentos e fraca regeneração

As baixas taxas de recrutamento que comprometem a renovação geracional e a sustentabilidade a longo prazo do montado.

 

A regeneração espontânea já não assegura a renovação do sistema. A utilização de sementes autóctones e geneticamente adaptadas demonstra maior taxa de sobrevivência, sobretudo em solos afetados por patógenos.


Gestão sustentável: Caminhos para o futuro


A sustentabilidade do montado exige uma abordagem integrada, multidisciplinar e orientada para o longo prazo. Torna-se fundamental assegurar a proteção da regeneração natural contra o pastoreio excessivo, criando condições favoráveis ao estabelecimento das jovens plantas.


A utilização de espécies arbustivas facilitadoras pode igualmente desempenhar um papel relevante, ao promover microclimas mais estáveis e proteger as plantas jovens e frágeis, em fases iniciais de desenvolvimento.


Paralelamente, a plantação com material certificado e geneticamente adequado reforça a resiliência dos povoamentos, especialmente face a condições climáticas adversas e à presença de patógenos. A monitorização climática contínua permite antecipar riscos e ajustar práticas de gestão, enquanto o investimento em programas de melhoramento genético contribui para aumentar a adaptabilidade do sobreiro. Acresce a necessidade de um controlo rigoroso de pragas e doenças, prevenindo perdas significativas de vitalidade e produtividade.


Em última instância, a continuidade deste sistema depende de políticas públicas consistentes, do apoio governamental à investigação científica e aos produtores e de uma fiscalização eficaz ao longo de toda a cadeia produtiva, garantindo a preservação e valorização sustentável do montado.

 

Produção sustentável


O sobreiro pode viver entre 250 e 300 anos, mantendo ao longo da sua existência a capacidade de produzir cortiça. A extração inicia-se apenas quando a árvore atinge a maturidade, geralmente entre os 20 e os 25 anos, e realiza-se em ciclos regulares de nove anos, sem que seja necessário proceder ao abate.


Após cada descortiçamento, a cortiça regenera-se naturalmente através do felogénio, tecido responsável pela sua formação, assegurando assim a sustentabilidade do recurso, a preservação das funções ecológicas da árvore e a continuidade da produção ao longo do tempo. Importa ainda salientar que a cortiça de maior qualidade, designada por amadia e destinada sobretudo à produção de rolhas, só é obtida após cerca de 40 anos, quando a árvore já passou por vários ciclos de extração.

 

Propriedades técnico-funcionais


A cortiça distingue-se por um conjunto notável de propriedades físico-químicas que a tornam um material de elevado desempenho. Apresenta excelente capacidade de isolamento térmico e acústico, é naturalmente impermeável, possui elevada elasticidade e compressibilidade, demonstra resistência à abrasão e evidencia comportamento favorável como retardante natural de fogo. Acresce ainda o facto de ser isenta de resinas sintéticas, o que reforça o seu caráter sustentável e ambientalmente responsável.


Estas características justificam uma diversidade de aplicações que ultrapassa largamente o uso tradicional em rolhas, abrangendo pavimentos técnicos, painéis isolantes, revestimentos interiores e exteriores, soluções de design sustentável, bem como produtos de moda e acessórios que surgem como alternativa ecológica ao couro.


A sua incorporação em aplicações aeroespaciais, nomeadamente no isolamento térmico dos vaivéns da NASA, bem como em edifícios de referência internacional, evidencia a sua versatilidade tecnológica e o seu reconhecimento como material inovador e de elevado valor acrescentado.

 


O sobreiro e o montado constituem um dos mais notáveis exemplos de sustentabilidade integrada na Europa mediterrânica. A sua conservação exige conhecimento científico, compromisso político e envolvimento social.
Investir no montado é investir na biodiversidade, na economia verde, na mitigação climática e na identidade territorial portuguesa. A sustentabilidade não é apenas um conceito aplicado ao montado, é a própria essência deste ecossistema. 🌿

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