Choro da Videira, Nasce um Novo Ciclo.
- Carla Vieira

- 3 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de mar.
”Na primeira luz da primavera, a seiva sobe em silêncio e escorre pelos cortes do inverno, como memória líquida do frio que passou. É o anúncio de um novo ciclo, um sussurro rosado que liga raiz e céu, espera e promessa".
Entre o rigor do inverno e o renascer dos rebentos, há um choro que não é dor, é a vida a recomeçar...um renascimento. Mas porque a videira "sangra", o que esse gesto revela sobre o tempo, o frio e o futuro da colheita?
O choro da videira é um fenómeno fisiológico característico da transição entre o repouso vegetativo invernal e o reinício da atividade metabólica primaveril. Manifesta-se pela liberação de seiva bruta através de feridas abertas, sobretudo cortes de poda, ocorrendo após a poda de inverno e antes do abrolhamento. Este evento constitui um dos primeiros indicadores visíveis da saída da dormência e da reativação funcional do sistema radicular e do tecido vascular da planta.
Durante o período de repouso vegetativo, a videira apresenta atividade metabólica mínima. Com o aumento progressivo da temperatura no final do inverno, ocorre a reativação do sistema radicular e do xilema. O choro surge neste intervalo fenológico, antecedendo o abrolhamento, e traduz a retoma da circulação interna de seiva.
O fluido líquido verifica-se principalmente em feridas recentes, uma vez que a integridade do sistema vascular é interrompida, permitindo a saída da seiva sob pressão, quando a temperatura do solo atinge aproximadamente 8 a 10 °C, e as raízes retomam a atividade metabólica. Através da ação de bombas iónicas localizadas na endoderme radicular, ocorre absorção ativa de nutrientes minerais, nomeadamente nitratos (NO₃⁻), potássio (K⁺), cálcio (Ca²⁺) e magnésio (Mg²⁺), bem como de compostos azotados solúveis, incluindo aminoácidos.
Esta acumulação de solutos nos tecidos radiculares gera um gradiente osmótico que promove a entrada de água por osmose, resultando no enchimento progressivo dos vasos do xilema.
No início da primavera, a videira apresenta transpiração residual, dado que ainda não possui folhas funcionais. Nestas condições, o fluxo ascendente da seiva não é impulsionado pela sucção transpiratória, mas sim por pressão radicular positiva, que pode atingir valores entre 0,1 e 0,5 MPa.
A pressão radicular desempenha um papel crucial, enchendo completamente os vasos do xilema, dissolvendo embolias formadas durante o inverno e por fim, restabelece a continuidade da água no sistema vascular.
Ao fazer os cortes de poda, esta pressão interna força a saída da seiva para o exterior, originando o fenómeno conhecido como choro da videira.
A seiva libertada durante o choro não é constituída apenas por água, mas por uma solução complexa de elevada relevância fisiológica. A sua composição inclui predominantemente água (cerca de 95 a 98%), bem como açúcares simples, como glucose e frutose, aminoácidos (especialmente arginina e glutamina), ácidos orgânicos (málico e tartárico), sais minerais e hormonas vegetais.
Entre as hormonas destacam-se as citocininas, associadas à estimulação do abrolhamento, e as giberelinas. Esta composição reflete a mobilização das reservas acumuladas nos tecidos lenhosos e radiculares durante o período de dormência.

O fluxo contínuo de seiva contribui para a reidratação dos tecidos lenhosos, a dissolução de bolhas gasosas resultantes de cavitação invernal e a preparação do xilema para um transporte eficiente de água e solutos durante o ciclo vegetativo.
As substâncias transportadas pela seiva sustentam processos fundamentais ao reinício do crescimento, incluindo a divisão celular, a diferenciação dos primórdios foliares e o arranque do crescimento vegetativo.
Embora o choro não constitua um mecanismo direto de termorregulação, o movimento hídrico associado contribui para a estabilização dos potenciais osmóticos celulares e para a atenuação de estresses associados a oscilações térmicas típicas do início da primavera.
O choro ocorre preferencialmente nos cortes de poda, o que lhe confere relevância prática. Em condições normais, este fenómeno não é prejudicial à videira, não implicando perdas significativas de reservas, e constitui um indicador de boa atividade radicular e de vigor fisiológico.
No entanto, podas excessivamente tardias podem intensificar o choro e, em climas húmidos, a presença prolongada de feridas ativas pode aumentar o risco de infeções por doenças do lenho, como Esca ou Eutypa. Assim, torna-se fundamental o planeamento adequado da época de poda e, quando necessário, a proteção das feridas.
O choro da videira resulta da interação entre fatores ambientais, fisiológicos e anatómicos, nomeadamente o aumento da temperatura do solo, a reativação metabólica das raízes, a geração de pressão radicular e a continuidade do xilema. Longe de ser um simples extravasamento de água, trata-se de um evento funcional crítico que marca a transição da videira de um estado conservativo para uma fase ativa de crescimento.
Do ponto de vista vitícola, o choro constitui um sinal de vitalidade e eficiência do sistema radicular, indicando a prontidão fisiológica da planta para iniciar um novo ciclo produtivo.
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