Vinhas Velhas, a Memória do Terroir.
- Carla Vieira

- 4 de mar.
- 5 min de leitura
"Entre raízes profundas e décadas de silêncio da terra, as vinhas velhas guardam a memória do território e transformam tempo em vinho.”
Afinal, o que são Vinhas Velhas?
Vinhas velhas costumam ser entendidas (por ex. no Douro) como vinhas com várias décadas de existência, muitas vezes >40–50 anos, com sistema radicular profundo e maduro, menor produção e uvas mais concentradas. O léxico do IVDP refere explicitamente que vinhas velhas têm sistema radicular “profundo e maduro”, associado a cachos menos numerosos e mais concentrados. (retirado do ivdp.pt)
Em Portugal, assim como em outros países que produzem vinho, o termo “vinhas velhas” não tem uma definição legal que seja única, clara e que sirva para todos. Diferente de outras categorias de vinhos que já têm regras claras na lei, como as Denominações de Origem Protegidas (DOP) e as Indicações Geográficas Protegidas (IGP), a expressão “vinhas velhas” ainda não possui um suporte legal definido. A falta de regras claras faz com que o termo não inclua de maneira adequada pontos importantes, como as tradições da produção de vinho, a proteção de áreas históricas que devem ser valorizadas culturalmente e o controlo rigoroso do uso comercial desse nome.
Como resultado, aparecem grandes desafios relacionados à proteção desse património, ao seu valor económico e à sua preservação para as próximas gerações. Na legislação sobre vinhos em Portugal e da comunidade, especialmente com relação ao Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) e à Organização Comum do Mercado (OCM) de Vinhos, a classificação das vinhas se baseia principalmente em regras administrativas e de produção.
Esse regulamento, embora sirva para que os produtores rotulem com a informação de vinhas velhas, não considera a importância histórica, cultural e de identidade que as vinhas velhas têm no mundo do vinho. Gerando abuso por parte de alguns produtores que se privilegiam dessa rotulagem para cobrar valores superiores pelo seu vinho.
Dessa forma, podemos identificar quatro tipos de vinhas: as novas, as que estão começando a produzir, as que estão produzindo bem e, em alguns casos, as que são chamadas de vinhas velhas. Essa classificação não dá, por si só, um status legal especial ao termo "vinhas velhas", nem oferece direitos ou benefícios diretos para os produtores, especialmente em relação à rotulagem ou ao acesso a programas de apoio.
Quando não se enquadra nas normas definidas pela prática comum dos viticultores há produtores que denominam como vinhas antigas, gerando dúvida ao consumidor.

Resiliência as alterações climática
A viticultura enfrenta dificuldades cada vez maiores por causa das mudanças climáticas. Isso inclui o aumento da temperatura média, a diminuição da chuva ao longo do ano e o aumento de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas que duram muito tempo e tempestades que geram enchentes. Esses fatores afetam diretamente como a videira funciona, como ela amadurece e o tipo de vinho que produz. Isso pode colocar em risco a produção e a qualidade de várias regiões que fazem vinho. Diante dessa situação as vinhas velhas se destacam, devido a sua capacidade de se adaptar a essas condições, especialmente em áreas mais afetadas.
As vinhas velhas se destacam por terem um bom equilíbrio funcional que se desenvolveu ao longo de várias décadas. Esse equilíbrio vem, primeiramente, do crescimento forte e profundo das raízes, que ajuda a planta a alcançar nutrientes nas camadas profundas do solo que as vinhas jovens não conseguem. Assim, ela consegue aceder a fontes de água e reduz os problemas causados pela falta de água. Em solos pobres e bem drenados, como os xistosos do Douro ou os graníticos do Dão, esta característica assume especial importância face à crescente irregularidade das chuvas ao longo do ano.
A produção naturalmente reduzida das vinhas velhas, frequentemente associada à idade da planta e ao encepamento misto tradicional, contribui igualmente para este equilíbrio fisiológico. A menor carga produtiva diminui a pressão sobre os recursos hídricos e nutricionais, favorecendo a concentração e qualidade da uva, sendo a expressão mais fiel do terroir. Este comportamento traduz-se em vinhos com maior complexidade aromática e potencial para vinhos de guarda, mesmo em anos marcados por temperaturas elevadas.
No contexto do território português, a relevância das vinhas velhas varia conforme a região, mas mantém um denominador comum, a resiliência diante das alterações climáticas. No Douro, representam um fator decisivo de resiliência face ao aumento do estresse hídrico em encostas xistosas severas. No Dão, contribuem para a preservação da frescura, elegância e tipicidade, num equilíbrio climático cada vez mais delicado. No Alentejo, demonstram uma notável tolerância ao calor extremo, contrastando com a crescente dependência da rega nas vinhas modernas.
Contudo, esta baixa produtividade explica também a fragilidade económica destas vinhas, sobretudo em sistemas de produção orientados para o rendimento por hectare. As vinhas velhas constituem um património vitícola de elevado valor ecológico, cultural e enológico. A sua resiliência fisiológica, aliada à capacidade de manter a identidade regional dos vinhos portugueses, torna a sua preservação estratégica para o futuro da viticultura nacional. No entanto, essa preservação exige políticas públicas adequadas, mecanismos de valorização económica e enquadramento legal específico, como meio de incentivar e apoiar os produtores que persistem em cultivar vinha velhas apesar do sistema ignorar essa preciosidade que difere Portugal de outros países, sendo dos poucos produtores com vinhas verdadeiramente antigas, algumas superiores a 100 anos.
“Preservar o património agrícola é preservar a memória coletiva e a identidade de um povo, pois a cultura da terra é também cultura do espírito”.
Frase extraída do livro: Diário e Contos da Montanha, Miguel Torga
Para Miguel Torga, a terra não é apenas um espaço de produção económica, mas um lugar de memória, identidade e dignidade humana. O saber agrícola tradicional transmitido de
geração em geração, representa uma forma de cultura viva, onde o homem, a natureza e o tempo estão em equilíbrio. Destruir ou abandonar esse património é romper a continuidade entre passado, presente e futuro.
As vinhas velhas apresentam essa conexão entre o tradicional que deve ser preservado e transmitido para as futuras gerações e o contemporâneo, uma vez que têm na sua fisiologia os elementos necessários para suportar as alterações climáticas. Preservar castas antigas e autóctones garantem uma base para estudar aquilo que poderá ser relevante no futuro. Além de que castas antigas refletem o verdadeiro terroir de uma região, pois foram elas que resistiram ao longo dos anos a todas as crises no campo e continuam fortes a produzir vinhos de alta qualidade e complexidade. Sendo elementos distintivos e estratégicos para a imagem e valorização da região vitivinícola. Aliado a tendência do mercado onde consumidores buscam beber menos e melhor, somado as alterações climáticas onde as vinhas velhas apresentam resiliência, apostar na sua manutenção é uma escolha assertiva.
Por outro lado, sua preservação é um desafio. A legislação que regula a viticultura tende a ser pouco diferenciadora ou insuficiente no apoio específico a estas vinhas, não compensando adequadamente a sua importância patrimonial. Acresce que o viticultor enfrenta baixos rendimentos por hectare, elevados custos de manutenção, maior exigência de mão de obra devido a dificuldade de mecanização. Esta realidade económica torna a sua exploração pouco competitiva face a vinhas mais jovens e produtivas.
Assim, a contradição reside no facto de as vinhas velhas serem altamente valorizadas do ponto de vista cultural, histórico e de qualidade, mas pouco sustentáveis do ponto de vista económico, colocando em risco a sua continuidade. A sua preservação depende, portanto, de políticas de valorização adequadas, incentivos económicos e de uma justa remuneração do valor que acrescentam aos vinhos e às regiões onde se inserem. Políticas essas que além de regulamentar a denominação precisam também fiscalizar de forma a evitar que ocorra apropriação cultural.
Preservar as vinhas velhas não é apenas proteger plantas antigas, mas garantir que a memória, a identidade e o futuro da viticultura portuguesa continuem enraizados na terra.
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