A Resiliência da Videira.
- Carla Vieira

- 14 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de mar.
“A resiliência da videira não se limita à resistência às adversidades, sendo também resultado das práticas culturais que orientam o seu renascimento, num diálogo silencioso entre a terra e a mão humana, e cada estação escreve, no tronco e na raiz, a memória viva da persistência.”
A viticultura é uma das práticas agrícolas mais antigas da civilização, é também uma das que melhor representa a integração entre natureza e cultura. A videira, espécie de reconhecida rusticidade, possui uma fisiologia adaptada à adversidade e ao tempo: rebrota após podas severas, adapta-se a diferentes terroirs, resiste à seca e queimadas.
A videira ano após ano nos propõe uma análise profunda entre a força da natureza em se regenerar e a ação humana através de técnicas que propiciam não só sua regeneração, mas também longevidade produtiva e com qualidade.
A resistência da videira é inseparável das práticas culturais que orientam o seu crescimento e da ação humana que transforma o espaço vitícola ao longo das gerações. Porém, há evidências que a resiliência não é apenas um atributo genético, mas o resultado de uma interação contínua entre homem, ambiente e planta.
A resiliência da videira vai além de simplesmente suportar condições adversas, englobando também a capacidade de regeneração vegetativa guiada por práticas culturais. Estudos agronômicos sublinham que fatores como seleção de porta-enxertos vigorosos, manejo adequado do dossel e manutenção do solo reduzem o stress hídrico e térmico da planta, favorecendo sua sobrevivência a longo prazo. Por exemplo, optar por porta-enxertos mais vigorosos e de raízes profundas aumenta a adaptação da videira a condições extremas.
Igualmente, intervenções em verde (poda, desfolha, desrama) harmonizam a estrutura foliar e melhoram o microclima nos cachos, equilibrando a relação entre área foliar e produção. Além disso, práticas de conservação do solo (cobertura morta, drenagem e adubação adequada) constituem a base da sobrevivência da videira, preservando umidade e nutrientes essenciais.
Tais medidas ampliam a saúde geral da planta, transformando a forma de manejo contínuo em longevidade não só para a videira, mas também para toda região vitícola.

As boas práticas agrícolas: um olhar para o futuro
Porta-enxerto e seleção da casta: O porta-enxerto desempenha papel central na fisiologia, adaptação e desempenho produtivo da videira, constituindo um dos principais fatores que determinam sua longevidade e resiliência em ambientes submetidos a stress hídrico e o stress térmico, especialmente em cenários de aquecimento global, irregularidade pluviométrica e aumento da frequência de eventos extremos, como exemplo, incêndios. A escolha de porta-enxertos adaptados a tais condições torna-se, portanto, estratégia indispensável para a sustentabilidade e eficiência do cultivo vitícola moderno. Devem ser levados em consideração na escolha, salinidade e pH extremos, que muitas vezes se associam ao stress hídrico. Optar por porta-enxertos mais vigorosos e com raízes mais profundas aumenta o acesso a água reservada e confere maior resiliência a secas prolongadas.
Outro fator importante que deve ser levado em consideração é o estudo de castas autóctones para identificar as que melhor se adaptam a cada terroir, diversificar o cultivo, em vez de parcelas monocastas, são práticas que protegem o vinhedo de perdas totais quando atingido por praga ou mesmo no caso das alterações climáticas, sendo a biodiversidade favorável ao equilíbrio do ecossistema.
Sistema de condução e intervenções em verde: A condução e a arquitetura da vinha controlam o microclima do dossel (temperatura, radiação, ventilação) e a relação folha/fruto, isso influencia na transpiração, sombreamento das bagas, e a capacidade da planta de dissipar calor. Dosséis equilibrados reduzem incidência de doenças fúngicas (menos umidade estagnada) e menos flutuações extremas de stress favorecem sistema radicular e longevidade produtiva.
Sistemas que permitem boa penetração de luz e ventilação (espaldeira com densidade controlada, cordão bilateral adaptado, Guyot duplo etc.) ajudam a manter temperaturas foliares mais baixas e a reduzir pequenos pontos de aquecimento.
As intervenções em verde permitem harmonizar a estrutura do coberto vegetal, reduzindo stress térmico nos cachos e equilibrando a relação área foliar e produtividade. Ao remover sarmentos laterais e rebentos sem produção, reduz-se área foliar vegetativa improdutiva, quanto menos folha supérflua, menor transpiração total da planta e menor exigência hídrica. Essa intervenção evita debilitação por sobrecarga e reduz risco de stress crónico que diminui longevidade.
Cobertura do solo e fertilização: A cobertura do solo aparece como uma prática cultural essencial. Após um incêndio, ela ganha ainda mais importância protegendo o solo contra a erosão, e ao reduzir a amplitude térmica do solo, ajudando a conservar a humidade e a recuperar a microbiota. Quando bem manejada, a cobertura limita o crescimento de ervas invasoras sem comprometer a recuperação da videira. Atua como um “escudo” e um “restaurador” após o stress térmico do incêndio.
Já a fertilização destaca-se como base da sobrevivência da vinha ao repor nutrientes perdidos, ajudando a videira a emitir novos rebentos e folhas, favorecendo as raízes na regeneração após danos térmicos e cria um plano nutricional adequado aumentando a capacidade da videira em enfrentar novos stresses (hídrico, térmico).
Portanto, cobertura do solo e fertilização são complementares: a primeira protege e regenera o solo, a segunda dá suporte direto à videira. Juntas, criam condições para que a planta recupere vigor e volte a ser produtiva após o trauma do fogo.
A viticultura contemporânea enfrenta desafios crescentes relacionados as alterações climáticas, a degradação ambiental e frequente ocorrência de incêndios em áreas agrícolas. Nesse contexto, a videira destaca-se por sua notável capacidade de regeneração e longevidade. A vinha velha nos faz refletir sobre o papel das intervenções humanas na reconstrução da vinha após eventos extremos. Conclui-se que a resiliência da videira é tanto biológica quanto cultural, manifestando-se na interação entre o conhecimento técnico do viticultor e a capacidade natural da planta de se regenerar.
A vinha sobrevive porque a natureza resiste, mas permanece porque o homem aprende a cuidar do seu renascimento.
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