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Recuperação da vinha após incêndios

  • Foto do escritor: Carla Vieira
    Carla Vieira
  • 29 de jan. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 8 de fev.

 Entre o fogo e a terra, a vinha reaprende o caminho da vida.

 

Portugal é anualmente fustigado por incêndios rurais e florestais, onde o ano de 2024 não foi exceção. As regiões Norte e Centro são frequentemente expostas a estes fenómenos, cujo impacto pode comprometer significativamente a vitalidade das vinhas e o seu potencial produtivo. Após um incêndio, é fundamental avaliar os danos causados nas videiras e implementar estratégias direcionadas para a recuperação vegetativa e a monitorização contínua das plantas, assegurando a sobrevivência e a qualidade futura da produção.” – Texto extraído integramente do Boletim Informativo nº1, Cluster da Vinha e do Vinho. 

 

A vinha apresenta um enorme potencial de regeneração, sobretudo as vinhas mais antigas, nas quais o sistema radicular se encontra protegido nas camadas mais profundas do solo. Assim, através de meios técnicos, é possível avaliar os danos e promover as intervenções necessárias à sua recuperação, sempre que se verifique a possibilidade de regeneração vegetativa. De seguida, abordo de forma simplificada cada fase desta investigação de campo pós-incêndio.

 

Avaliação dos danos: Deve-se observar folhas e ramos queimados, e no tronco através de um corte verificar viabilidade dos vasos, podendo vir a utilizar coloração com azul de metileno. Por fim, análise dos gomos através do uso de microscópio. Sendo a avaliação visual e coloração do tronco o método mais viável.  

 

Intervenções, recuperação vegetativa e monitorização: Primeiro atua-se nos danos visíveis e na rega, depois aproveita-se a regeneração natural da planta conforme o ciclo, e

por fim monitoriza-se cuidadosamente para ajustar poda e condução garantindo regeneração da videira e retomada da produção.

 

Tempo para retomar a produção:

 

Estratégia

Produção Plena

Observações

Formação por gomos latentes (enxerto)

3 anos

Produção parcial no 2º ano

Formação por porta-enxerto

4 anos

Requer enxertia no ano seguinte

Replantação (>20% falhas)

4–6 anos

Produção completa apenas no 5º/6º ano

 

Substituição da vinha: Apenas em casos irreversíveis ou inviabilidade da recuperação. 

 

Gestão do solo após incêndio e estratégias de mitigação:


  • Proteção contra erosão;

  • Recuperação da fertilidade;

  • Promoção da atividade microbiana;

  • Cobertura vegetal;

  • Monitorização contínua com a colheita de amostras e análises periódica.


Após incêndios, o solo perde estrutura, fertilidade e biodiversidade, exigindo medidas integradas de proteção, fertilização, regeneração biológica e monitorização contínua. 

 




Apesar do impacto severo que os incêndios rurais e florestais continuam a ter sobre o território nacional, a vinha demonstra uma notável capacidade de resiliência. Quando corretamente avaliada e acompanhada, sobretudo nas vinhas mais antigas, a regeneração vegetativa é não só possível como, em muitos casos, eficaz. A chave está numa avaliação técnica rigorosa dos danos, seguida de intervenções ajustadas à realidade de cada parcela e a uma monitorização contínua ao longo do ciclo vegetativo.


A recuperação pós-incêndio não é um processo imediato, exigindo tempo, conhecimento e decisões informadas, quer ao nível da condução da videira, quer na gestão do solo, elemento essencial para o restabelecimento da produtividade e da qualidade da uva. Apenas em situações de dano irreversível se justifica a substituição total da vinha, devendo esta ser sempre a última opção.


Num contexto de alterações climáticas e de recorrência crescente destes fenómenos extremos, torna-se cada vez mais importante adotar estratégias preventivas e de mitigação, reforçando a resiliência das vinhas e a sustentabilidade do setor vitivinícola. Entre o fogo e a terra, a vinha continua, assim, a reaprender o caminho da vida — desde que lhe sejam dadas as condições certas para o fazer.


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